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Rio de Janeiro – Um incêndio nos alojamentos do Centro de Treinamento Ninho do Urubu, do Flamengo, deixou 10 mortos na madrugada de sexta-feira (8) no Ninho do Urubu, como é conhecido o Centro de Treinamento Jorge Helal, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio. No alojamento dormiam garotos de 14 a 17 anos dos times juniores do Flamengo.

Foram 10 mortos e três feridos, sendo que um dos feridos seguia internado em estado grave no início da noite de sábado (9), outros 13 jovens escaparam ilesos.

Por causa do temporal da última quinta (7), que deixara o Ninho do Urubu sem luz, treinos tinham sido cancelados. Com o cancelamento, os jovens que tinham residência no Rio puderam dormir em suas casas, e não estavam no alojamento no momento do incêndio. Todos os dez mortos eram de fora da capital fluminense e se mudaram para o Rio para jogar no Flamengo.

O incêndio começou às 5h07 em um dos seis módulos de contêineres adaptados para dormitórios. A hipótese mais provável é um curto-circuito em um ar-condicionado. Bombeiros chegaram rapidamente, mas já encontraram os contêineres envoltos em chamas. O fogo foi apagado às 6h30.

Imagens de câmeras de segurança mostram jovens saindo do alojamento quando o fogo já ardia em um dos quartos. As câmeras registraram ainda explosões e muita fumaça. Tentativas de debelá-lo com água de bebedouros e extintores foram em vão.

Três atletas foram levados para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra. Em estado mais grave está Jhonatan Ventura, com queimaduras em um terço do corpo.

Em depoimento à polícia na sexta-feira (8), um dos sobreviventes relatou que oito dos dez mortos dormiam nos dois quartos mais afastados do dormitório em que o incêndio começou. Além de estarem mais longe do princípio do incêndio e dos gritos de alerta dos colegas, eles também estavam mais afastados da única porta de saída do alojamento. Outros atletas contaram que, ao perceber o calor e fumaça no ambiente, quebraram janelas do alojamento para tentar salvar amigos. Um deles disse que os colegas ‘pareciam desmaiados’.

No Quarto 1 (à esquerda e mais longe do início do incêncio) dormiam cinco dos dez mortos: Gedson Santos, de 14 anos, Bernardo Pisetta, 14, Arthur Vinicius, 14, Pablo Henrique da Silva Matos, 14, e Vitor Isaías, de 15 anos.

No Quarto 2 dormiam outros três jogadores que morreram: Christian Esmério, Jorge Eduardo Santos e Samuel Thomas Rosa, todos de 15 anos. Neste sábado, Kayque Soares Campos, um dos jogadores que sobreviveu, afirmou que dormiria nesse quarto, mas, naquela noite, ele decidiu dormir no Quarto 4, mais perto do início do incêndio e da porta de saída. Ele afirmou que acordou com os gritos de alerta dos colegas e que todos os seis garotos que estavam em seu quarto conseguiram fugir a tempo.

No Quarto 3 dormiam quatro jogadores, e três deles conseguiram fugir a tempo: Cauan Emanuel, de 14 anos, Jonathan Ventura, 15, e Francisco Dyogo 15 anos. Já Athila Paixão, de 14 anos, morreu.

No relato, não houve confirmação sobre onde dormia Rykelmo de Souza Vianna, de 16 anos.

Nove das dez vítimas foram encontradas carbonizadas. O IML usou métodos como identificação por impressão digital e arcada dentária para o reconhecimento dos oito corpos, mas os corpos de Jorge Eduardo Santos e Samuel Thomas Rosa ainda não haviam sido identificados até a noite de sábado (9).

Irregularidades

Tanto a Prefeitura do Rio quanto o Corpo de Bombeiros do RJ afirmam que o CT do Flamengo tem pendências no licenciamento. Segundo os bombeiros, o Ninho do Urubu ainda não tem o Certificado de Aprovação, que atesta o esquema contra incêndios. A corporação afirma que a documentação está em processo de regularização.

Já a Prefeitura informou que o dormitório não tem licença. “A área de alojamento atingida pelo incêndio não consta do último projeto aprovado pela área de licenciamento, no dia 5 de abril de 2018, como edificada”, diz em nota. “No projeto protocolado, a área está descrita como um estacionamento”, frisa a Prefeitura.

O Flamengo, segundo o governo municipal, levou 31 multas por causa da falta de licença, e pagou 10 delas. O município acrescentou que a atual licença do CT tem validade até 8 de março deste ano e que “não há registros de novo pedido de licenciamento da área para uso como dormitórios”.

Veja a cronologia dos desdobramentos

Setembro de 2017: Flamengo pediu, segundo a prefeitura, o alvará de funcionamento para o centro de treinamento, mas sem o certificado de aprovação dos bombeiros;

16 de outubro de 2017: Prefeitura multou o clube por manter o Ninho do Urubu funcionando sem o alvará;

20 de outubro de 2017: Prefeitura emitiu um edital de interdição do CT. De lá pra cá, foram 31 multas;

Abril de 2018: Flamengo apresentou um projeto para fazer uma nova construção no terreno. Segundo a prefeitura, o local que pegou fogo constava nesse projeto como um estacionamento – não como alojamento. E nunca nenhum pedido foi feito para a construção de dormitórios ali;

Novembro de 2018: os bombeiros fizeram a mais recente vistoria no CT. Mais uma vez, não emitiram o certificado de aprovação porque ainda havia pendências em relação ao projeto de segurança. Em nota, a corporação disse que não interditou o centro porque não constatou riscos que justificassem legalmente a interdição imediata;

12 de dezembro de 2018: a Prefeitura aplicou a mais recente multa ao Flamengo, por descumprir a ordem de interdição.

Defesa do Flamengo

O clube, por sua vez, negou neste sábado que o incêndio tenha sido provocado pela falta de licença e certificado dos bombeiros. Em um pronunciamento à imprensa, o CEO do Flamengo, Reinaldo Belotti, disse que o local era “adequado”, “confortável” e não era um “puxadinho”. Segundo Belotti, picos de energia ocorridos após o temporal que desabou no Rio, na noite de quinta-feira (7), podem ter gerado um curto-circuito no ar-condicionado.

Em nota divulgada no sábado, a Light, concessionária de energia do Rio, informou que, às 9h35 da manhã de quinta-feira, véspera do incêndio, o fornecimento de energia no CT foi normalizado e que, depois disso, não houve registro de oscilação de energia.

Presença de Poliuretano

Neste sábado, especialistas disseram à imprensa que foram encontrados sinais de que painéis instalados como paredes dos contêineres continham poliuretano, uma mistura de produtos químicos que se transformam em espuma rígida após a aplicação, impedindo a passagem de ruídos e do calor. Esse material, que é altamente inflamável, era usado na Boate Kiss, que pegou fogo em 2013, deixando 242 pessoas mortas e quase 700 feridos.

Em sua página na internet, a NHJ, empresa que instalou os contêineres no alojamento do Ninho do Urubu, informa que usa poliuretano injetado no meio dos painéis que, segundo a empresa, são de chapas de aço, dos dois lados. Até a noite deste sábado (9), no entanto, a empresa não respondeu se o módulo que pegou fogo era assim.